Câncer de cabeça e pescoço avança entre mulheres e pessoas pardas

Um estudo recente publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas trouxe um alerta importante para a saúde pública brasileira: o perfil da mortalidade por câncer de cabeça e pescoço no país mudou de forma significativa ao longo das últimas quatro décadas. A pesquisa, que analisou dados de 1980 a 2023, revela avanços importantes no controle da doença em alguns grupos populacionais, mas também evidencia um crescimento preocupante de óbitos entre mulheres, pessoas pardas e moradores das regiões Norte e Nordeste.

Embora esse tipo de câncer ainda seja mais frequente entre homens, a tendência de aumento da mortalidade em grupos historicamente menos afetados aponta para desigualdades socioeconômicas, geográficas e de acesso à saúde, que influenciam diretamente o diagnóstico, o tratamento e a sobrevida dos pacientes.

Como o estudo foi realizado

A análise foi baseada em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, disponibilizados por meio do DataSUS. Os pesquisadores acompanharam a evolução das mortes por cânceres de cavidade oral, orofaringe e laringe ao longo de 44 anos, observando variações conforme sexo, raça/cor, faixa etária e região do país.

Segundo os autores, esse amplo recorte temporal permite compreender não apenas a evolução da doença, mas também os efeitos de políticas públicas, mudanças comportamentais e transformações sociais ocorridas no Brasil nas últimas décadas.

Avanços desiguais no controle da doença

Os resultados mostram que o Brasil obteve progressos relevantes na redução da mortalidade por câncer de cabeça e pescoço entre homens brancos, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. Um exemplo destacado no estudo é o Sudeste, onde houve uma redução de aproximadamente 40% no risco relativo de morte por câncer da cavidade oral entre homens.

Esses avanços estão associados, em grande parte, a políticas públicas eficazes de controle do tabagismo, maior acesso a serviços de saúde especializados e diagnóstico mais precoce, fatores que impactam diretamente a sobrevida.

No entanto, esse cenário positivo não se repete de forma homogênea em todo o país.

Crescimento de mortes entre mulheres e populações vulneráveis

Em contraste com a queda observada em determinados grupos, o estudo identificou um aumento consistente da mortalidade entre mulheres, além de pessoas pardas e residentes das regiões Norte e Nordeste. Nessas áreas, a tendência de crescimento foi observada em praticamente todos os tipos de câncer analisados, atingindo ambos os sexos e diferentes faixas etárias.

De acordo com especialistas, esse padrão reflete desigualdades estruturais que afetam desde a prevenção até o acesso ao tratamento adequado. Regiões com menor cobertura de serviços especializados, dificuldades de diagnóstico precoce e barreiras socioeconômicas tendem a apresentar piores desfechos.

Mudanças nos fatores de risco ao longo do tempo

A médica oncologista Ludmila Koch, do Hospital Israelita Albert Einstein, destaca que as transformações nos fatores de risco ajudam a explicar parte dessas diferenças. Segundo ela, embora as políticas antitabagismo tenham reduzido significativamente o consumo de cigarro no Brasil, os benefícios dessas ações não foram distribuídos de forma igualitária.

“Essas mudanças podem ter favorecido mais homens brancos que vivem em grandes centros urbanos, enquanto mulheres e grupos socialmente menos favorecidos continuam mais expostos a fatores de risco e enfrentam maiores dificuldades de acesso ao sistema de saúde”, analisa a especialista.

Além do tabaco, outros fatores comportamentais e ambientais, como consumo de álcool, infecções virais específicas, condições de trabalho e menor acesso à informação, também influenciam o risco e o prognóstico desses cânceres.

O impacto das desigualdades regionais

O estudo chama atenção para o cenário do Nordeste, onde foi identificada uma tendência de aumento da mortalidade em todos os tipos de câncer de cabeça e pescoço analisados. Esse dado reforça a necessidade de políticas regionais mais direcionadas, capazes de ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento especializado.

Especialistas ressaltam que a distância dos grandes centros de referência, somada a limitações econômicas e estruturais, contribui para que muitos pacientes recebam o diagnóstico em estágios mais avançados da doença, o que reduz as chances de sucesso terapêutico.

A importância do diagnóstico precoce

O câncer de cabeça e pescoço costuma apresentar melhores resultados quando identificado precocemente. Alterações persistentes na boca, garganta ou voz, feridas que não cicatrizam, dor ao engolir e nódulos no pescoço são alguns sinais que merecem avaliação médica.

O estudo reforça que investimentos em prevenção, educação em saúde e ampliação do acesso aos serviços especializados são fundamentais para reduzir as desigualdades observadas e melhorar os desfechos em todo o território nacional.

Um alerta para políticas públicas

Os autores concluem que, apesar dos avanços alcançados em determinados grupos, o Brasil ainda enfrenta desafios importantes no controle do câncer de cabeça e pescoço. A mudança no perfil da mortalidade ao longo de 44 anos evidencia que políticas de saúde precisam considerar recortes regionais, sociais e de gênero, garantindo que os benefícios da prevenção e do tratamento alcancem toda a população.

Promover equidade no acesso à saúde não apenas salva vidas, mas também contribui para um sistema mais eficiente, sustentável e justo.

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